Poderia nos recomendar alguns livros, filmes e/ou artistas que influenciam seu trabalho?
Minhas recomendações são quase sempre de ecologia e de culturas não ocidentais, pois foi isso que abriu as portas da percepção para mim, trazendo a esperança de que muitas construções de mundo ainda são totalmente possíveis. Inclusive criei dentro do meu site de portfólio uma seção de recomendações chamada Ecologia Digital, que direciona essas leituras para pensar novas relações do design com a tecnologia. Meu top 3 é:
– A revolução das plantas, do biólogo italiano Stefano Mancuso;
– A terra dá, a terra quer, do pensador quilombola Antonio Bispo do Rosário;
– Maneiras de ser: Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária, de James Bridle. Ele é um autor mais conhecido por outro livro sobre tecnologia, de título menos amigável: A nova idade das trevas: a tecnologia e o fim do futuro.
Também tenho muitas indicações de ficção, pois ela é indescritivelmente necessária para o exercício da memória e da consciência. Inclusive, ficção e memória foram temas dos dois textos que escrevi para a revista Recorte: o primeiro é “O corpo não mente: pelo fim do cabo de guerra entre design e arte” e o segundo é “Assuntos palestinos, a oliveira e o direito à memória”. Organizando novamente um top 3 para a ficção:
– O que resta do tempo, um filme sobre a memória palestina, do diretor Elia Suleiman;
– Duna — recomendo mais o livro do que o filme, pois ele elabora magnificamente sobre inteligência artificial e o papel da ficção na formação das sociedades;
– Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin, sobre novas formas de fazer ciência.
Sobre pessoas que admiro, são realmente um batalhão, mas gosto de indicar uma ideia que aprendi com bell hooks, no livro Art on My Mind, ainda sem tradução para o português. Nele, ela fala sobre processos criativos para pessoas socialmente excluídas e diz que, ao pesquisar algo muito único, muito nichado ou muito novo, você pode sofrer com a solidão de não ter um professor para te ensinar. Mesmo assim, é importante não caminhar sozinho: quando não houver um professor, invente-os. Busque pessoas em qualquer lugar que sejam inspiradoras e te ensinem muito e, mesmo que não sejam professores, passe a considerar elas como professores. Interprete sua presença como aula, faça anotações e extraia delas tudo o que puder.