Aprender Design

25 de fev de 2026

Perguntas, Respostas: Maria Alvina

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Escola

Quem são os alunos e professores que fazem parte da Aprender Design? Na série “Perguntas, Respostas”, buscamos apresentar as trajetórias e as referências criativas de pessoas que formam a nossa comunidade. 

Conheça Maria Alvina, designer, pesquisadora, artista e convidada do curso Decodificando Identidades.

Oi Maria! Tudo bem? Poderia se apresentar e nos contar um pouco sobre quem você é, com o que você trabalha, o que você gosta de fazer e uma curiosidade que poucos sabem?

Oie! Sou Maria Alvina, designer, pesquisadora e artista. Vim do interior do Paraná direto pro interior da internet. Me formei em Design Gráfico pela UFSC, em Florianópolis, conhecida como o Vale do Silício brasileiro, onde a formação em design é bastante voltada pro digital. Acabei me desenvolvendo a partir desse lugar de história impossível que a tecnologia cria, onde pessoas e culturas do mundo inteiro se misturam no mesmo espaço, e se tenta construir uma história universal, em que todos falam o mesmo idioma digital e se organizam em uma linha — mas a linha sempre se quebra, porque organizar a vida dessa forma é impossível. Por isso, faz mais sentido pensar não em linhas, mas em um mapa de pontos de cruzamento. É pra esses pontos que direciono minha pesquisa, tanto na prática artística pessoal quanto no trabalho profissional, que, por metalinguagem, também acabam se cruzando.

Como começou sua relação com a arte e o design? Existe algum momento-chave que te fez seguir esse caminho?

Eu fui artista antes de ser designer. Era a criança de fazer cacareco, roupa de barbie, desenhar. Acho que tanto a arte quanto o design são atrativos para quem é jovem por envolverem a criatividade como esse lugar romantizado da liberdade mental, então quando cresci meu plano era simplesmente criar. O design ofereceu essa possibilidade estruturada de carreira, envolvendo tanto criatividade quanto linguagem, algo com que eu já me envolvia desde criança, com livros e desenho.

Minha turma na faculdade era formada quase toda por pessoas que migraram de outros cursos em busca dessa liberdade: ex-alunos de física, biologia, engenharia, direito. Mas também acho que ser artista ou criativo é, em certo sentido, o oposto da liberdade, porque somos, na verdade, perseguidos pela sensibilidade. Há uma obrigação urgente de sentir, de criar de forma sensível, de participar de grupos para ampliar o alcance dessa sensibilidade. O design, como um agente cultural, também ajuda a estruturar e a negociar com essa sensibilidade.

Além de designer, você também é pesquisadora. Em que momento a pesquisa passou a ocupar um papel central na sua trajetória? Como funciona a sua prática de pesquisa hoje?

A pesquisa surgiu como necessidade de elaborar essa sensibilidade que persegue a criação. Mas tive uma virada de chave quando percebi um vazio na relação do designer com a pesquisa. Todo designer é, de certa forma, um pesquisador, porque precisa se inserir no contexto do projeto. É aí que localizo a diferença entre design e arte: a arte pode partir apenas do ponto de vista do criador; o design exige que o designer se desloque para dentro do contexto, mapeando, conhecendo e interpretando. Só que quando o projeto é entregue, essa pesquisa geralmente se perde e vira apenas repertório cultural do designer. Acredito, porém, que ela pode se tornar um recurso renovável, revivendo ele, e também ampliando essa posição de historiador que o designer acaba involuntariamente ocupando.

Hoje materializo essa ideia no Index Votos, um projeto de pesquisa no Instagram onde arquivo e analiso referências gráficas pessoais e profissionais. O próximo passo é criar uma rede com outros designers, reunindo pesquisas e experiências culturais deles, e reunir isso em um site do Index, atualmente em desenvolvimento(spoiler). Em 2025, o projeto do Index foi premiado no Prêmio de Design Latino-Americano e me rendeu o convite para o painel “Mulheres que fazem o design brasileiro”, na Kuya Ceará. Atualmente, curso uma pós-graduação em Arte-Educação pelo Senac,  que fala sobre como colocar processos artísticos dentro dos espaços de ensino, e como colocar processos de ensino dentro dos espaços de arte, é basicamente uma formação para “mediadores”, o que acabou me mostrando o quanto do trabalho do designer também é de mediação.

Existe tensão entre pesquisa artística e trabalho corporativo? Você acredita que o mercado tem espaço para pesquisadores artísticos?

Com certeza, a tensão existe, e a separação entre eles tem se tornado mais complexa com esse aspecto de “dissolução de barreiras” que a cultura online propõe, principalmente com o Instagram funcionando, para designers, como uma mistura de interação interpessoal e pesquisa de trabalho. Ainda assim, acho possível navegar essa questão observando onde as habilidades em prática são parecidas, mas as intenções são diferentes — e vice-versa.

Acredito que existe espaço, e talvez até necessidade, do pesquisador artístico dentro do design, já que o design depende o tempo todo de mediação: transformar informação cultural em informação corporativa, analisar contextos, entender o que as pessoas sentem e desejam, e usar isso para pensar o que uma empresa pode oferecer e como consegue oferecer. Vejo isso como uma variação do pensamento multidisciplinar, porque não se trata apenas de conhecer diferentes formas de trabalho e pesquisa, mas de traduzir informações de um tipo de pesquisa para outro. Nesse sentido, o lugar de “dissolução de barreiras” da cultura digital pode ser visto pelo ângulo do copo meio cheio ou meio vazio: a mistura de intenções que existe na cultura online complica a visão, mas também oferece um excelente material de base para elaborar essa habilidade de tradução de intenções.

Sabemos que este é um tópico extenso, mas como você convidaria alguém a começar a refletir sobre a interação entre arte, design e tecnologia? 

Uma frase que me marcou muito ao ler sobre como a tecnologia pode aprender com a natureza foi: “precisamos criar menos e lembrar mais”. Como designer, isso soou como uma dupla ofensa pessoal, já que nosso trabalho é criar olhando para a frente — o oposto de olhar para trás e lembrar. Mas há um paradoxo aí: o cérebro precisa da memória para formar consciência, para se constituir como um sujeito que lê a realidade. Ao mesmo tempo, o léxico digital nos leva a associar memória à “capacidade de armazenar”, a ter memória, e não a ser memória.

A criação do designer, seja mais ou menos artística, está sendo atravessada (atropelada, na verdade) por essa reconfiguração tecnológica da ideia de memória. Isso nos obriga a encontrar formas de reivindicar a memória como função e gesto do corpo, para além de pastas, salvos, favoritos e backups. Pode parecer abstrato ou mirabolante, mas há muito a aprender de forma prática com a cosmovisão e a literatura indígena, assim como com culturas orais em geral, que, por não dependerem do registro físico, utilizam o corpo como ferramenta para lembrar, pensar e sonhar. Seja o próprio corpo, seja outros corpos da natureza, em relação e interação.

Olhando para sua trajetória, como as oportunidades foram surgindo e que aprendizados você tirou disso para quem está construindo carreira agora?

Acredito que cada projeto de design te coloca em um contexto, em um lugar entre ciências e filosofias. O designer é um viajante nesse sentido, e algo que pratico e tento aconselhar é tirar o máximo proveito e curiosidade de cada contexto. Seja em um projeto grande em equipe, ou em um freela simples, mergulhe o quanto puder no tema do projeto, nas tretas que envolvem o contexto dele, não fique apenas nas referências do Pinterest, conheça lugares, informações geográficas, nomes e histórias de pessoas. Os projetos que fazemos já existem dentro dessas teias de contexto, e é importante que a gente exista ali também, mesmo que nossa condição seja de passagem. É um ditado clichê, mas que funciona: não ser um turista, ser um viajante.

Poderia nos recomendar alguns livros, filmes e/ou artistas que influenciam seu trabalho?

Minhas recomendações são quase sempre de ecologia e de culturas não ocidentais, pois foi isso que abriu as portas da percepção para mim, trazendo a esperança de que muitas construções de mundo ainda são totalmente possíveis. Inclusive criei dentro do meu site de portfólio uma seção de recomendações chamada Ecologia Digital, que direciona essas leituras para pensar novas relações do design com a tecnologia. Meu top 3 é:
A revolução das plantas, do biólogo italiano Stefano Mancuso;
A terra dá, a terra quer, do pensador quilombola Antonio Bispo do Rosário;
Maneiras de ser: Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária, de James Bridle. Ele é um autor mais conhecido por outro livro sobre tecnologia, de título menos amigável: A nova idade das trevas: a tecnologia e o fim do futuro.

Também tenho muitas indicações de ficção, pois ela é indescritivelmente necessária para o exercício da memória e da consciência. Inclusive, ficção e memória foram temas dos dois textos que escrevi para a revista Recorte: o primeiro é “O corpo não mente: pelo fim do cabo de guerra entre design e arte” e o segundo é “Assuntos palestinos, a oliveira e o direito à memória”. Organizando novamente um top 3 para a ficção:
O que resta do tempo, um filme sobre a memória palestina, do diretor Elia Suleiman;
Duna — recomendo mais o livro do que o filme, pois ele elabora magnificamente sobre inteligência artificial e o papel da ficção na formação das sociedades;
Os despossuídos, de Ursula K. Le Guin, sobre novas formas de fazer ciência.

Sobre pessoas que admiro, são realmente um batalhão, mas gosto de indicar uma ideia que aprendi com bell hooks, no livro Art on My Mind, ainda sem tradução para o português. Nele, ela fala sobre processos criativos para pessoas socialmente excluídas e diz que, ao pesquisar algo muito único, muito nichado ou muito novo, você pode sofrer com a solidão de não ter um professor para te ensinar. Mesmo assim, é importante não caminhar sozinho: quando não houver um professor, invente-os. Busque pessoas em qualquer lugar que sejam inspiradoras e te ensinem muito e, mesmo que não sejam professores, passe a considerar elas como professores. Interprete sua presença como aula, faça anotações e extraia delas tudo o que puder.

Você foi aluna aqui na escola e agora volta como convidada ao lado dos professores. Como foi sua experiência enquanto estudante na Aprender Design, o que ela agregou à sua trajetória e como é retornar agora nesse novo papel?

Tive a oportunidade incrível de fazer dois cursos do Aprender Design, sobre temas diferentes e em dois momentos distintos, e perceber como eles se conectam, acho que já deu pra notar que a mediação, pra mim, veio pra ficar. Fiz o Decodificando Identidades com a Giulia Fagundes, em 2023, e, em 2025, o Design pra Produtos Digitais, com Marcos Rodrigues e Rafael Bessa. Ambos fazem um panorama riquíssimo do design internacional e das transformações culturais que acompanham a história das ferramentas da tecnologia e do próprio design. É como se as aulas de história do design da faculdade ganhassem vida, multiplicando as portas de caminhos possíveis para pensar o design, além de oferecerem uma base sólida para aplicar todo esse conhecimento de forma prática nas atividades finais dos cursos.

Acompanhe Maria Alvina no Instagram, acesse seu site e conheça sua pesquisa.

Aproveite para ler outras entrevistas:

Paula Brito, Sênior Designer na Work & Co.

Danielly Caetano, Designer Gráfica na Oliver LATAM e aluna da escola.

Lucas D'Ascenção, Designer gráfico, Diretor de Arte, Ilustrador e aluno da escola.

Renato Mendes, professor do curso de Estratégia de Produtos Digitais.