Aprender Design

18 de mar de 2026

Perguntas, Respostas: Lucas Luz

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Quem são os alunos e professores que fazem parte da Aprender Design? Na série “Perguntas, Respostas”, buscamos apresentar as trajetórias e as referências criativas de pessoas que formam a nossa comunidade. 

Conheça Lucas Luz, Associate Creative Director na &Walsh e professor do curso Criação Visual Multidisciplinar.

Oi Lucas, tudo bem? Seu curso Criação Visual Multidisciplinar aborda design, IA e criação híbrida. Como você aplica essas práticas no seu dia a dia? E quais aprendizados do curso você acha que realmente fazem diferença no trabalho diário de um designer?

No meu dia a dia, tudo isso já acontece de forma muito integrada. Eu não separo design, direção de arte e IA como etapas isoladas. A IA entrou nesse processo como um catalisador do que eu faço, ela me ajuda a testar possibilidades, visualizar caminhos com mais rapidez e expandir o campo de exploração. Mas ela não substitui o olhar.

O que mais faz diferença no trabalho real é entender fundamento. Tipografia, cor, composição, hierarquia, narrativa visual. Porque é isso que sustenta qualquer projeto, com ou sem IA.

Você já trabalhou em projetos para grandes marcas como Apple, Google e Netflix. Existe algum projeto que mudou a forma como você pensa sobre direção de arte ou sobre o próprio papel do designer no mundo?

Mais do que um projeto específico, o que mudou minha visão foi perceber o papel que a gente ocupa nesse tipo de trabalho. Muitas vezes, grandes empresas procuram um olhar de fora justamente porque precisam de frescor, e o nosso papel acaba sendo mediar a criação entre equipes diferentes, culturas diferentes, expectativas diferentes.

Isso me ensinou que o designer não é só quem executa. É quem traduz, conecta e dá forma a uma intenção. E quanto mais você entende de gente, de contexto e de narrativa, mais relevante você se torna nesse processo.

Como foi a experiência de transitar entre diferentes culturas e processos criativos? E quais mudanças você percebeu no processo criativo das agências com a chegada das ferramentas de IA?

Trabalhar com pessoas de tantas nacionalidades quebrou completamente uma barreira que eu tinha: a de achar que o trabalho de fora era sempre melhor. Na real, o lugar onde você está pouco importa para a qualidade do que você entrega. Tem gente incrível no mundo inteiro, e o Brasil tem uma força criativa que é muito respeitada lá fora.

Sobre IA nas agências, o que eu vejo é uma mudança de ritmo e de expectativa. As ferramentas aceleraram etapas de exploração e prototipagem, mas também criaram uma armadilha: a de achar que vamos ter mais tempo para fazer as coisas que são exclusivamente humanas. Isso é mentira. A barra de qualidade aumentou tanto que, na maioria das vezes, vamos trabalhar mais ainda.

No curso, os alunos desenvolvem um case completo, do conceito à apresentação. Na sua visão, o que diferencia uma boa ideia de design de um projeto que realmente convence?

Eu acho que uma boa ideia já é o que precisa para convencer. Qualidade de execução não é mais um diferencial, todo mundo pode e sabe fazer projetos bem executados. O que tira um trabalho da mediocridade é ter um projeto que tem intenção, tem ponto de vista. Não é só bonito, ele diz alguma coisa. E isso começa no conceito, não no layout.

Como você ensina os alunos a trabalhar rápido sem perder pensamento crítico e intenção visual?

Eu gosto de pensar que velocidade vem de clareza, é ter tanto repertório que o trabalho começa a parecer fácil. Isso é uma construção que leva anos e vai além da tela do computador.

Quando você tem repertório, você ganha velocidade naturalmente. Tenho um amigo que sempre fala que treina para ser um atleta do design, e é isso que eu busco: sempre melhor e mais rápido.

Para designers que transitam entre tipografia, imagem, direção de arte e agora inteligência artificial, como construir um repertório visual realmente sólido?

Primeiro, olhando muito e olhando com atenção.

Eu acho importante estudar design, mas também cinema, editorial, moda, fotografia, arte, publicidade, internet, cultura popular. E mais importante ainda: desenvolver senso de edição. Hoje todo mundo tem acesso a muita imagem, mas nem todo mundo consegue fazer uma boa leitura dessas imagens.

Na sua opinião, quais são os maiores desafios éticos ao integrar IA no design?

Acho que os maiores desafios passam por autoria, originalidade e o senso humano.

A IA pode ser incrível para acelerar processo, mas ela também pode gerar trabalho genérico e reproduzir padrões problemáticos. Então, para mim, o ponto principal é: a responsabilidade continua sendo humana. Ferramenta nenhuma resolve sozinha o que é ético, sensível ou apropriado. Quem decide isso é quem está dirigindo o processo.

E como você vê a IA se tornando parceira do designer sem substituir a criatividade humana?

O termo "IA" deve cair em desuso muito em breve, porque ela não é uma disciplina em si. É uma separação desnecessária, mas normal para o começo de uma era, assim como "internet" um dia foi um setor dentro das agências.

IA não tem a ver com criatividade. É um acontecimento que se mistura e costura a teia do que é criar algo. O que é humano, para mim, está menos em produzir imagem e mais em formular pergunta, construir contexto, fazer leitura crítica, editar com sensibilidade e dar direção. A IA é uma ferramenta poderosa, mas quem dá sentido ao que sai dela continua sendo a pessoa que está no comando.

Que conselho você daria para designers que aspiram a uma carreira global, mas ainda estão começando, especialmente em um mercado que combina criatividade, tecnologia e IA?

Muito cedo na minha carreira, eu aprendi que a barreira entre o que a gente considera local e global é muito mais fina do que parece. A qualidade do que fazemos aqui no Brasil é tão boa quanto, e muitas vezes até melhor, do que muita coisa que vejo no resto do mundo. Já me perguntaram várias vezes por que existem tantos designers brasileiros bons, e acho que isso diz muito sobre a nossa força criativa. A nossa reputação lá fora já é muito boa, agora é só a gente aproveitar isso.

Para quem está começando agora na indústria criativa, qual habilidade você acredita que será mais valiosa nos próximos anos: domínio técnico, pensamento conceitual ou capacidade de adaptação?

Se eu tivesse que escolher uma, eu diria pensamento conceitual, porque é ele que nos da a capacidade de editar, no sentido mais amplo da palavra. Saber editar ideias e conectá-las, ser o curador do que o mundo coloca na nossa frente. Precisamos ser o funil que vai agrupar e canalizar o que importa diante de um mundo absolutamente saturado de quase tudo.

Se você pudesse dar um único conselho para designers que estão tentando encontrar seu próprio caminho neste momento em que tecnologia e criatividade evoluem tão rápido, qual seria?

Fortaleça o seu olhar e aproveite cada momento em que você estiver verdadeiramente apaixonado pelo que faz. Essa paixão é um dos maiores combustíveis para aprender, evoluir e criar no seu máximo potencial.

Por fim, olhando para os próximos cinco anos, quais mudanças você acredita que vão moldar o design?

Vejo uma valorização crescente da figura do diretor, a pessoa que consegue conectar linguagens, tem repertório e tem coragem de tomar decisões criativas. Por outro lado, acredito que teremos uma desvalorização das tarefas mais mecânicas ou puramente técnicas.

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